domingo, 1 de março de 2015

DEPOIS


Depois de amar,
Aventurou-se em uma nova estação.
Depois da estação,
Estacionou-se o passado em breves despedidas.
Depois da despedida,
Despediu-se sem medo de deixar o olhar.
Depois do olhar,
Olhou-se, profundamente, para o chegar da tarde.
Depois da tarde,
Entardeceu-se com o voo dos pássaros.
Depois do voar,
Voou-se sem se quer saber seu destino.
Depois de saber,
Destinou seu coração para aventuras...
Cristiano Oliveira

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

COSTUREIRA

Imagem: José Bezerra Neto – “A costureira” – Mossoró/RN
Museu de Arte de Santa Maria (RS)

Eram linhas
que se perderam deste novelo
roladas ao chão,

prometidas à agulha.
Eram mãos cansadas, laboriosas
que buscavam as pontas dos fios
destinadas à costura.
Eram os consertos nos tecidos rasgados.
Eram as mãos das Terezas e das Joanas
As trêmulas mãos das Marias e das Anas.
Calejadas mãos de Sebastiana.
Miradas com os olhos cansados.
Que não confundiam cores e nem manhãs.
Agora, por onde andam as linhas
Que não tem trem e nem guias
procuradas por todos estes dias.
Linhas dos tricôs e dos crochês
dos abrolhos e dos bordados
linhas que as mãos
costuraram o passado.

Crisjoli Fingal  

EIS A VOZ


Eis a voz que o mundo não compreende.
Que não tem tradução, vocabulário e nem linguagem.
Voz que os perdidos desconheceram.
Voz que a ciência não corroborou.
E que os orgulhosos não comunicaram. 
Voz que os loucos não dançarão.
E que os ocupados não conhecerão.
Eis a voz que as ruas sufocaram.
E os carros atropelaram.
Eis a voz que o amor esquentou.
Que a oração rezou.
Que o inocente brincou.
Eis voz que a alma cantou!
E que só somente o silêncio escutou.
Eis a voz das ondas.
Das fontes invisíveis.
Voz dos santos e dos anjos.
Voz das pedras e dos profetas.
Voz do tempo, do hoje e do nunca.
Voz dos sábios e dos distantes.
Vozes incompletas e inquietantes...
Crisjoli Fingal

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

VELHOS RETRATOS



Se tenho guardados meus velhos retratos
é porque são minhas lembranças, minhas saudades.
Se recordo do passado e se o tenho amado
é porque são minhas infâncias, minhas metades.
Se tenho lá no alto a magia de duas estrelas
elas brilham todos os dias, para eu nunca esquecê-las.
Crisjoli Fingal

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

AURORA



Eu quero pegar a aurora na mão
E sentir a gota do orvalho.
Quero fazer minha primeira oração
Nos primeiros raios da manhã.
Quero ouvir o tecer dos galos
Bendizendo a terra anciã.

Crisjoli Fingal 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

MENTIRA



Não sei se era Antônio, João ou Maria
Não sei se tinha rosto, pseudônimo ou se mentia
Não sei se era passado, se tinha futuro ou alegria
Não sei se vivia da noite ou se buscava a luz do dia.


Só sei que fraudava os sinais.
Burlava as palavras
Sem consequências finais.

Com sua perna curta
Perdida em discurso impreciso
Apesar de ser astuta
Quando quebrou o paraíso.

Vivia calada,
Em meio à escuridão
Tinha boca de vento
Sopro de silêncio
Garras de gavião.

Tinha medo do pensamento
Quando o discernimento
Disse-lhe: “Aqui não!”

Perdeu para a verdade
Morreu em sua vaidade
Quando a confiança
Não lhe deu mais razão.



Crisjoli Fingal 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

PÓ DA VIDA

Eis o pó da vida!
Pó que nascemos.
Pó que retornaremos.
Pó que não nos humilha.
Que não nos diferencia.
Pó que não nos marginaliza e nem nos exclui.
Mas, pó que simboliza a origem.
Que guarda nossos passos.
Que suja nossos pés.
Pó das poeiras dos caminhos.
Do deserto da alma.
Pó dos caminhantes.
Dos ofegantes...
Dos orantes!
Pó da fé!
Que purifica os pecados.
Eis o pó que nos ajuda
a reconhecer nossa pequenez,
a abraçar a grandeza divina
no amor misericordioso do Cristo.
Pó das cinzas!
Que tem o verdadeiro tom da vida.
Pó da ressurreição.
Crisjoli Fingal