quinta-feira, 31 de março de 2011

As Incertezas dos tempos modernos

Leitura do cotidiano das mulheres modernas.


As incertezas dos tempos modernos

Despeço-me dos tempos de outrora por onde a vida, de tão submissa, ficava apenas dividida entre as obrigações do lar e da missa.
Despeço-me das palavras de ordens que comandavam os matrimônios, que impunham sobre os sonhos, imputando a liberdade e a quebra dos sinônimos das expressões de lealdade.
Digo adeus aos tempos de silêncio, de grito calado por não poder dizer aos meus, nem aos seus, uma palavra que fosse além dos imperativos ditados. Das lições gravadas, obrigadas e memorizadas, sem serem cunhadas na palma do coração.
Digo adeus aos tempos de proibição, sem poder ir, sem direito de vir, sem a mínima chance de possuir, os caminhos do porvir.
Despeço-me das longas jornadas trabalhadas, das tarefas programadas, das obrigações da casa, onde não se ganhava nada, a não ser o diploma de boa mulher, boa mãe, boa esposa. Do tempo que apenas valorizava os dotes culinários, os afazeres doutrinários. Dos dias rotineiros, sem piedade e sem dinheiro, em que a vida se resumia na filosofia em que o lugar da mulher era à beira da pia.
Deixo de lado, os conceitos de pecado que sempre proibiram a mulher de lutar, de deixar a casa e os filhos para poder trabalhar. Do tempo em que se dizia, que se casava para a vida inteira, sujeitada e violentada de sua necessidade primeira, de ser humanizada, amada e respeitada como mulher e não como propriedade alheia.
Entro num novo tempo, no tempo da revolução, do direito de dizer sim e do direito de dizer não. Do tempo do fim e do tempo da recriação. De ser mulher lutadora, mulher batalhadora, de ser mulher solteira, mulher guerreira e de ser mulher de oração.
Mulher de conceito, sem preconceito e de direito de ter razão. Mulher de filosofia e de harmonia, mulher de poesia, mulher de coração.
Entro neste tempo da boa palavra e da crítica, da mulher de ser política que pode gravar a sua história, nas páginas da humanização.
Entro para o trabalho, para gerenciar, não apenas ser dona do lar, mas da boa educação. Mulher da organização, perdida às vezes em meio a tanta obrigação, de ter que dizer a última palavra com garra e determinação, mas sem perder a delicadeza, a sutileza e a razão.
Venho preparada para os tempos modernos, às vezes com medo, às vezes com fé, guardando os segredos, lutando contra os hodiernos conceitos que apagam os desejos de ser apenas mulher.

Cristiano Oliveira

2 comentários:

EFGoyaz disse...

Quê isso! Que sonoridade! Que inteligência em encaixar as idéias. É prazeroso lê-lo. Inteligente também a forma como você vai desfiando as situações e uma idéia de mulher vai desaparecendo, enquanto outra, muito mais forte, vai sendo formada conforme a gente lê. Essa é uma das situações onde a palavra "parabéns" parece pouco.

Cristiano disse...

Obrigado meu fiel e amigo leitor. Suas palavras e análises são, sem dúvida alguma, ego pra alma. Valeu por tudo mesmo.

Cora Coralina

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